Sobrevivi

Dizer adeus ao Antelope Park foi difícil… Não por causa dos leões ou elefantes, mas por causa das camas e do chuveiro privado.

Dizer adeus ao Antelope Park significava pelo menos mais 3 noites em uma barraca o que, por sua vez, significava montar a porcaria da barraca e desmontá-la às 5h30 da manhã. Sofrimento, dor, perrengue.

Mas dizer adeus ao Antelope Park também significava estar 4 dias mais próxima de voltar pra casa. Sucesso.

Rumamos para o Hwange National Park, com direito a uma parada para almoçar no acostamento de uma estrada, só para lembrar que estávamos, novamente, deixando a dignidade para trás.

Adeeeeus dignidade.

Depois da tradicional parada em uma cidade x para os caipiras encherem a geladeira de álcool, chegamos no parque na hora do pôr-do-sol. Montamos a barraca e fomos colocadas em um carro para mais um safári noturno.

Eu já falei que safári nem sempre é legal, que eu já tinha feito vários e que safári noturno é um saco, mas esse foi excepcionalmente ruim. Isso porque estava absurdamente frio e a gente estava em um veículo aberto.

E tem uma coisa que vocês precisam saber sobre o Zimbábue. O Zimbábue é uma filial da Bahia… Uma nação de pessoas que simplesmente don’t give a shit.

O nosso motorista, por exemplo, acelerava sem o menor pudor, impedindo a gente de sequer procurar pelos reflexos dos olhos dos animais.

Mas a atitude irresponsável dele atingiu um nível completamente diferente quando nos deparamos com uma manada de elefantes no meio do Parque.

É muito legal ver elefantes selvagens de perto e tudo o mais, mas elefantes são responsáveis por 400 mortes por ano, o que os coloca entre os cinco animais mais perigosos do mundo.

Mas vocês acham que o guia gave a shit? Claro que não. E dirigiu direto para o meio da manada.

O barulho que vocês escutam no final desse vídeo é o som emitido por um elefante nervoso:

E foi basicamente isso o que conseguimos ver naquela noite. Porque, somada a velocidade com que estávamos dirigindo, ao frio e à escuridão, não se podia ver muito mesmo.

No dia seguinte partimos para mais um safári.

Enquanto no Kruger National Park o cuidado é extremo, no Hwange não importa se você precisar fazer xixi no mato. Eles param e esperam… Leões por perto? Quem liga.

Em determinado momento um dos carros quebrou. Para vocês verem a extrema negligência.

Perrengue, o mascote da nossa viagem, mostra toda a sua atitude quanto a isso.

Notem nosso colegas de viagem ao fundo. hehehe

Enfim. Apesar de todos esses “problemas”, foi no Hwange que eu tive a verdadeira sensação de estar na África.

As coisas são bem menos artificiais do que o Kruger e, como os guias don’t give a shit, a gente acaba chegando mais perto dos animais.

Outra coisa legal do Hwange é que tem umas plataformas de observação em que você pode ficar admirando os animais bebendo água e, no meu caso, torcendo para um leão voraz aparecer.

Se você quer ver esses animais em movimento:

Outra coisa bacana é uma parte de proteção e conservação dos cães pintados, ou cães selvagens.

Esses animais estão em extinção porque são extremamente burros.

Eles só caçam em grupo, o que significa que se um membro da alcateia (ou qualquer que seja o coletivo de cães selvagens) morrer, todos morrem de fome porque não encontram um substituto para aquela função.

Os cachorros são os que mais caem em armadilhas, os que mais morrem atropelados e os que mais são mortos por leões, por diversão.

Seleção natural mandou um beijo.

E mais uma coisa muito, mas muito, legal do Hwange, mas que é mais um exemplo de negligência, é que o camping fica bem no meio do parque, sem separação alguma dos animais.

Perto do nosso camping tinha um lago onde vários tipos de animais iam beber água, principalmente no final do dia. E eles construíram um ponto de observação nesse lugar meio que subterrâneo, então você acaba ficando extremamente perto dos animais.

O vídeo (desculpa lotar esse post de vídeos) dá uma ideia da proximidade do negócio.

Foi a caminho desse ponto de observação, entretanto, que tive a experiência mais bizarra e assustadora de toda a minha vida.

Acontece que animais selvagens não respeitam muito barreiras que não sejam físicas. Muito menos os elefantes. E um elefante esfomeado bebeu tudo o que queria e caminhou em direção ao nosso camping para encher a barriga…

Quando estávamos para passar por ele ouvimos o barulho e paramos. E ficamos observando até encher o saco e passarmos por ele.

Quando cheguei no ponto de observação e percebi que as fotos sairiam boas, resolvi voltar para o camping para pegar a minha máquina. E passamos pelo elefante de novo.

E mais uma vez para voltar para o lugar…

Passar perto de um elefante selvagem é uma coisa muito assustadora. Mais assustador ainda se atentarmos ao fato mencionado lá em cima, sobre as 400 mortes por ano.

Enfim.

Pior é que, quase chegando no ponto de observação, no escuro, eu ilumino o lugar de onde ouvi o barulho e só vejo centenas de olhos de búfalo me encarando. Algo mais ou menos assim:

Eu tinha assistido a The Grey, o filme em que o Liam Neeson cai de avião no meio de uma floresta e precisa sobreviver a um bando de lobos, dias antes de viajar. Quando vi aqueles olhos brilhantes olhando pra mim tinha certeza de que iria reviver esse filme. Mas não. Sobrevivi e fui pra casinha de observação.

O babaca do filho do bêbado pai ainda saiu da casinha e foi pro meio da manada. Alguma dúvida de que ele é um babaca? Provas o bastante?

Quando enchemos de ficar vendo os elefantes, voltamos para o camping. Só para darmos de cara com o elefante atravessando a rua.

Medo.

E ele fazia barulho de elefante raivoso.

Medo duplo.

Logo atrás de nós estavam chegando o Gift, o Chema e o Irvyn, os nossos “guias”. E o Gift diz “apaguem as lanternas agora”. Apagamos. Mas eu tinha passado 3 vezes por aquele elefante colocando a lanterna na cara dele só pra me certificar de que ele não estava se aproximando.

O Irvyn começou a jogar umas pedrinhas no meio do mato pra afastar o elefante e nós passamos, correndo…

E eu rezei muito aquela noite para que os elefantes não fossem além o bastante para cima das nossas barracas. Ouvi elefantes a noite toda ao redor do camping.

Partimos no dia seguinte para Victoria Falls. E se o Zimbábue é a Bahia, Victoria Falls é Porto Seguro.

A pior coisa de Victoria Falls é que, se você é branca e está andando pela cidade, vai ser abordada 15 vezes por negões tentando vender algo.

Uma das coisas que eles vendem é dinheiro antigo.

“Hey sistah. Wanna see some billion dollahs?”, eles perguntam, mostrando para você uma nota de um bilhão de dólares do Zimbábue. E você diz “não obrigada”, e eles perguntam “where you from sistah? Wanna an african boyfriend?”. E você quase vomita e continua a andar.

E isso acontece o tempo inteiro.

É insuportável. Para um país que depende do turismo para sobreviver, esse povo precisa aprender a lidar com turistas…

E eu inconformada pensando “mas quem compraria dinheiro velho, meu deus?”. A família de bêbados comprou. O JOGO TODO. O bundudo também comprou.

Lição aprendida com a Lia: “se estão vendendo, tem algum trouxa comprando”.

A atração de Victoria Falls é, claro, Victoria Falls, a maior cachoeira do mundo.

Os turistas podem fechar pacotes de aventura e fazer bungee jump nas cataratas, ou tirolesa ou não sei mais o que, mas eu e a Lia não gostamos de nada…

Mas depois de andarmos por 20 minutos NA CIDADE INTEIRA e percebemos que os quase três dias que teríamos lá seriam mais do que suficientes para ver tudo o que a cidade tinha para oferecer, resolvemos ir a um cruzeiro no pôr-do-sol pelo rio Zambezi no dia seguinte.

Naquela noite, a nossa última noite oficialmente no tour, recebemos uma visita para jantar:

E a Lia foi convidada para se juntar a eles:

Muitas, mas muitas risadas depois, eu tive a segunda experiência mais bizarra da minha vida e dessa viagem.

Fomos a uma festa. De reggae.

E sabe como eu expliquei que quando você anda na rua as pessoas vêm falar com você e ficam te oferecendo coisas? Na festa é tipo a mesma coisa. Só que em vez de oferecerem produtos, eles oferecem a si mesmos.

Inferno.

E só tinha homem naquela festa.

E a música era tão, mas tão, mas tão ruim. Pedi para irmos embora quase que imediatamente. Até porque se o cheiro da África é cheiro de CC o cheiro de uma festa de reggae na África é cheiro de cc com amarula. Gorfei.

No dia seguinte eu e a Lia fomos até Vistoria Falls com a Stephanie (a madalocker)

E eu devo dizer que essas capas de chuva não ajudam em nada.

Escolhemos uma época meio ruim para visitar Victoria Falls. Não sei o que acontece, mas nessa época do ano a água da cachoeira acaba formando uma chuva na floresta que rodeia as falls. E, por isso, saímos de lá ensopadas.

Passamos o resto do dia na beira da piscina de nosso camping digno (onde, aliás, eu e a Lia pegamos uma casa com dois quartos, cada um com duas camas, cozinha, sala de jantar e banheiro. Um espaço maior do que a casa de muita gente do país) esperando para irmos para o cruzeiro…

A graça do cruzeiro era que, além do passeio e de ver o pôr-do-sol diretamente do rio, eles serviam drinks e comidinhas.

Ficamos conversando com a Catherine e a Suzie, as meninas inglesas, e curtindo o passeio. O álcool ajuda. Algo que a família de bêbados (que também estava com a gente no barco) já sabia desde o início da viagem, não é mesmo?

Vimos o pôr-do-sol e nos despedimos do Zimbábue.

Ahh e posso dizer que a namorada do bundudo teve a falta de pudor de fazer trancinhas ridículas no cabelo todo?

Olha, quando eu digo que Victoria Falls está para Porto Seguro assim como o Zimbábue está para a Bahia eu estou sendo muito honesta e correta. Namorada do bundudo concordou comigo, claramente.

Voltou para a Austrália com o couro cabeludo aparecendo. Horrível.

Já eu, bom, voltei para o Brasil amando o meu país.

Assim, eu só tinha viajado para países de primeiro mundo e foi a primeira vez que fui para uma nação absolutamente pobre, em uma situação infinitamente pior do que a nossa.

O Brasil teve de ajudar o Zimbábue há alguns anos porque a seca foi tão grande que eles não tinham o que comer.

Senti falta de São Paulo, da civilização, do meu povo e, principalmente, da minha cama.

Mas voltei com histórias pra contar, com paisagens gravadas na memória e experiências que eu acho que não teria em nenhum outro lugar.

Passei perrengue, chorei, sofri, mas também me diverti. E conheci pessoas bacanas e babacas australianos.

Valeu a pena.

7 thoughts on “Sobrevivi

  1. Viagem sem perrengue não é viagem. Histórias para contar é que fazem o negócio valer a pena!
    Eu compraria uma nota de um bilhão por um dólar, não mais que isso. Quer suvenir mais nerd econômico do que esse?
    E calma que o mundo é grande e ainda tem muito perrengue pela frente, Lais.

  2. engraçado você concluir o texto dizendo que a viagem valeu a pena se, durante todo o relato, criticou o lugar… acho que está dando pouco valor às oportunidades que tem.

  3. Em alguns momentos das viagens pelo Atacama ou pela Bolivia (especialmente a segunda….onde tive que dividir um paredão de uma escola com outros 3 onibus, no que chamamos de mictório – e isto as 2 da madrugada – nem imagino como foi prá mulherada), ou mesmo durante as quase 50 horas de onibus que encarei uma vez, ,a pergunta que me fazia era: “Que eu tô fazendo aqui? Porque isto?”

    Hoje, só o que quero é voltar para estes lugares (ok, não a travessia de onibus). Por mais incomodo e problemas que uma viagem pareça ter tido, a lembrança do que foi sempre é melhor e faz a gente querer voltar.

    • É mesmo, Alex. Hoje eu estou com saudades da África… Saudades de algumas coisas que vi… É que, na hora, parece desesperador! hahahaha

      Eu sofri. Chorei. Foi difícil. Mas acho que, no fim, valeu a pena pq eu nunca mais vou me esquecer disso tudo

  4. Você ainda vai aprender muita coisa na vida, e pra começar te indico um curso de redação, pra começar aprendendo a redigir. Você só criticou, o que é um direito seu, gostar ou não da viagem, porém é simplesmente deplorável a forma preconceituosa como fala das pessoas. Não resta dúvida de que na verdade quem don’t give a shit é você, e olha, apaga essas besteiras que escreveu, porque isso é preconceito e preconceito dá cadeia. A Bahia e seu povo tem uma riqueza que aos olhos de pessoas antipáticas e sem cultura como você torna-se invisível, você viajará o mundo todo e jamais deixará de ser essa pessoa medíocre. Leia um pouco da história pra falar com propriedade, assim saberá que cultura é o que mais você encontrará aqui, afinal a Bahia é o berço do Brasil!

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