Quero ser Rory Gilmore

January 28, 2012

“I can never read all the books I want; I can never be all the people I want and live all the lives I want. I can never train myself in all the skills I want. And why do I want? I want to live and feel all the shades, tones and variations of mental and physical experience possible in life. And I am horribly limited.”
― Sylvia Plath

Ultimamente eu tenho me sentido assim.

Uma das minhas “resoluções” de ano novo foi ler pelo menos 20 livros em 2012. Não é uma tarefa difícil. Não está nem próxima do impossível. Mas, para cumprir essa meta eu preciso diminuir as horas que passo assistindo a filmes e séries. O que é triste.

Sabe aquele tipo de gente que mora em casas cheias de lixo e coisas que jamais jogaram fora? Aquele tipo de gente que acumula objetos e mais objetos? Aquele tipo de gente que é, para resumir, louco?

Eu sou uma dessas pessoas… Mas com “objetos” culturais.

Eu sinto a necessidade de ler todos os livros bacanas que existem. Não basta eu ler uma aventura do Sherlock Holmes, eu preciso ler todas.

Eu sinto a necessidade de assistir a todos os filmes que todo mundo (ou só algumas poucas pessoas) dizem que é bom. Eu preciso. Não posso não ter assistido a um século de cinema.

Eu PRECISO assistir a todas as séries que as pessoas comentam. Como eu posso ainda não ter visto Parks and Recreations ou ainda não ter terminado Louie?

Não posso conviver com isso. Com esse mundo cultural inacabado que eu sou.

Oi gente, eu sou retardada, maluca, obsessiva…

O problema dessa minha loucura é que eu sou, como disse Sylvia Plath, limitada. Eu trabalho, eu durmo, eu tenho amigos que gosto de ver e coisas que gosto de fazer. Tenho outras resoluções de ano novo e outras responsabilidades.

Por isso, seria absurdamente impossível ser como Rory Gilmore.

Eu não posso ler todos os livros do mundo, as revistas fúteis e catálogos. Não posso assistir a todas as séries do planeta e a todos os bons filmes do mundo e, ainda assim, ser linda, boa aluna e ter um namorado.

Gente, e a minha loucura nessa época de Oscar?

Eu estou surtando. De verdade.

Quando os indicados ao Globo de Ouro foram anunciados e eu percebi que apenas um filme de cata categoria tinha estreado aqui eu gritei, baixei metade e assisti no desespero.

Agora, com os indicados ao Oscar, faltam 3 filmes para eu assistir. Fora os indicados a filme estrangeiro, que eu também quero ver, e os que levaram atores e atrizes às categorias de melhor atriz/ator e melhor atriz/ator coadjuvante.

E o meu calendário de leitura?

Eu tenho de ler tudo em uma certa ordem, porque eu tenho de ler as obras que vão virar filme antes de o filme ser lançado. Não posso me dar ao luxo de ler o segundo volume de Guerra dos Tronos depois de abril, quando a segunda temporada já terá estreado. Não posso.

Como se essas loucuras todas não fossem o bastante, eu ainda tenho um entusiasmo fora do comum, algo que, como disse John Green, define os nerds.

Eu adoro isso. Adoro me apaixonar pelas coisas de uma maneira quase doentia, mas… Não deve ser saudável.

Por exemplo, um dos livros que li (já foram 3 desde 1º de janeiro! yuhuuu. Faltam 17) foi The Hunger Games.

Se você ainda não leu esse livro, mega recomendo. O filme estreia em março.

Bom, mas eu, imbecil, comprei só o primeiro volume da série. Como eu estava (ainda estou) comprando livros e DVDs como se o mundo não fosse acabar em dezembro (cof cof cof), eu achei que seria melhor eu ver se iria gostar do primeiro para depois comprar os outros dois.

Idiota, né? Era óbvio que eu ia gostar! E mesmo se não gostasse! Era óbvio que eu ficaria curiosa para saber o final da história.

Mas eu só fui ter essa conclusão brilhante quando eu já estava lendo o primeiro livro e, como o meu é em inglês, capa mole, eu queria que os outros dois completassem a coleção harmoniosamente. Aí comprei os dois outros volumes com atraso e entro no site da Livraria Cultura todos os dias para ver se a minha encomenda vai demorar (acho que chega terça-feira em casa).

Enquanto isso eu sofro.

Sofro também porque a Marina, que tem a incrível capacidade de me viciar em qualquer coisa (ela é a responsável pela minha obsessão com Wicked – e, consequentemente, musicais -, Doctor Who, Sherlock, QI, Would I Lie to You e tantas outras séries britânicas), me deu o DVD da série Miranda. Por enquanto foram só duas temporadas e cá estou eu, no desespero pela terceira.

A Miranda sou eu. Do troglodismo à capacidade tragicômica de ficar presa à chamada “friendzone”.

Tem como não se apaixonar pela série?

E como eu posso com isso, minha gente?

Como eu posso amar tudo isso e querer tudo isso quando tem tão mais para ver e ler?

Socorro. Quero ser Rory Gilmore.


Crônica

January 15, 2012

Eu não acho que eu tenho lá muito talento para contos e crônicas. Eu me dou melhor falando bobagens sobre as coisas que eu vi e vivi de um jeito debochado.

Quando veio o convite para escrever essa crônica para o Jornal da Tarde eu fiquei absurdamente feliz e, ao mesmo tempo, preocupada. Não sabia se conseguiria fazer algo razoavelmente bom.

Demorei quase um dia inteiro para escrever esse textinho e até que fiquei feliz com o resultado. Espero que tenha outras oportunidades no futuro.

A crônica saiu na edição de hoje do JT, com minha foto, uma ilustração e tudo do que tenho direito! hahahaha

O texto na íntegra você pode ler aqui:

Melodrama do mau tempo

Engraçado como a temperatura de um ambiente é capaz de mudar totalmente o humor de uma pessoa. Acho fantástico como os dias ensolarados são capazes de salpicar sorrisos pelas ruas enquanto os dias chuvosos arrancam mais olhares sérios e deprimidos do que gargalhadas.

É tudo uma questão de conforto. Os que se sentem mais confortáveis com o calor do sol tocando a pele estarão muito mais animados no verão. Por sua vez, os dias frios e chuvosos deixarão os introvertidos mais felizes, autorizados a se esconderem em meio a casacos e gorros.

Deve ser por isso que as chuvas de verão são tão desastrosas. A pessoa fica sem saber o que pensar, o que sentir. Não sabe se comemora o calor que faz na hora do almoço ou se teme o pé d’água que irá cair ao final do expediente.

Não importa qual é a sua opinião sobre a chuva e o efeito que ela tem no seu humor. O fato é que há muita poesia tanto na garoa quanto na tempestade. Tanto é que alguns dos beijos mais épicos do cinema são trocados debaixo de chuva.

A regra é que, se o que você sente é forte o bastante, você não irá se incomodar com os pingos que escorrem na sua testa ou as roupas molhadas.

Mesmo assim, fiquei chocada com a imagem que vi um dia desses de uma menina chorando na chuva, descalça.

Chorar na chuva – ou debaixo do chuveiro – é um sinônimo de liberdade. Suas lágrimas serão confundidas com a água que vem de cima.

Não julgo ninguém por chorar na chuva, é a falta de sapatos da garota que achei angustiante.

Ela não devia ter mais do que 20 anos. Provavelmente esperava por um táxi, segurando os sapatos de salto com uma das mãos e cobrindo o rosto com a outra.

Não me lembro em que rua vi a moça. Não a conheço e não faço ideia do que a levou a esse nível de desespero. Só sei que, para tirar os sapatos e colocar os pés descalços sobre o asfalto imundo de São Paulo, ainda mais sob a ameaça de enchentes, é preciso muito mais do que coragem. É preciso “desapego”. Desapego da vida e da própria saúde.

Andar sem sapatos em São Paulo é pedir para pegar alguma doença. Se estiver chovendo, é preciso rezar para não parar no hospital com leptospirose.

A situação daquela menina era desesperadora o bastante para ir além do amor à vida. Ela estava disposta a pegar uma doença só pelo “prazer” de chorar sem medo, sem atrair olhares para o seu coração partido.

Vale ressaltar que ela não chorava frente a um recente deslizamento de terra. Não participava de um velório ou visitava o túmulo de uma pessoa querida. Esse retrato do desespero não foi causado pela chuva. Foi emoldurado por ela.

Aquela menina estava muito consciente de toda a parafernália cênica proporcionada pelo mau tempo. O cabelo arruinado, as roupas encharcadas e a maquiagem borrada acrescentavam dramaticidade à sua dor.

Não sei o que aconteceu com ela. Não fiquei lá para assistir. Mas não duvido que alguém tenha corrido para oferecer um ombro amigo. Imagino que a pessoa que provocou suas lágrimas imploraria perdão e a consolaria.

O conforto viria na forma de um sorriso e um guarda-chuva. Ela enxugaria as lágrimas, como se fizessem diferença em sua aparência encharcada.

Ela provavelmente não aceitaria o pedido de desculpas logo de cara. Faria um drama, pois essa era a sua especialidade. Mas todos podem fazer drama na chuva.

Pode ser que fiquemos mais suscetíveis a chorar quando o céu parece sentir o mesmo. Mas não é por compaixão às dores da mãe natureza. É por saber que não há cenário mais perfeito.


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